Seguir por email

sexta-feira, 30 de dezembro de 2016

tinta permanente - João Pires - "Quero voar para 2017"

Quero voar para 2017, agora que ganhei asas. Mover-me no céu azul, observando tudo à minha volta com olhos de cristal. Sobrevôo. Estou a planar e olho lá para baixo. Estradas que parecem linhas de coser. Lagos como pequenos charcos e pessoas como cabeças de alfinete.
Mantenho-me no ar a flutuar, sem pensar em nada mais. O ano está findar. Pairar e sentir o ar puro. Explodir de felicidade por mais um vôo. Abro bem as asas para aproveitar ao máximo o ar rarefeito e encher o peito de céu azul, aplainando o ar.
Todos os dias vôo para aperfeiçoar.
Depois, com grande rapidez, mergulho em vôo picado, como se não houvesse 2017. As minhas penas resistem à velocidade extrema. Talvez se tenha desprendido uma. Vôo como se estivesse a atravessar a barreira que me transportará ao Ano Novo. Dessa forma consigo propagar a minha felicidade, deixando um rasto no ar, uma linha branca, como fazem os aviões quando cruzam os céus.
Elevo-me em pensamentos sublimes. Fecho os olhos, em pleno vôo e respiro fundo.


tinta permanente - João Pires - "Quero voar para 2017"
tinta permanente - João Pires - "Quero voar para 2017"


Desligo-me da realidade. Sinto-me ainda mais leve. Regresso à infância de época feliz onde não era preciso assumir responsabilidades nem viver preocupações. Que bom. Um sorriso, naquela época, valia ouro. Era puro, genuíno!
Depois cruzo uma nuvem perdida e desapareço rapidamente, como num passe de mágica.


Desço à terra. Bebo um pouco de água da fonte. O 2017 está a chegar. Passeio pelas ruas movimentadas da cidade. Vejo rostos com ar apressado. Correm em todos os sentidos. Tento samicar, mas sem sucesso. Movo-me na rua de maneira hesitante, ao lado das pessoas que caminham na mesma direcção, tentando dificultar a sua passagem. Mas não consigo chamar a sua atenção. Ninguém repara em mim. Será que não me vêem?


Ontem sonhei com felicidade. Sorrisos doces. Abraços puros. Talvez para fugir às amarguras do dia a dia.


Mas a noite da passagem de ano está a chegar. Aproxima-se a passos irreversíveis. O caminho é para diante. Não olhes para trás. Olha por onde andas. O dia de ontem já passou. Tenho a estrada pela frente. Uma casa. Uma porta que se abre. Uma lareira, um copo de vinho na mesa.


Quero brindar a 2017. Que venha com energias renovadas. Que me faça sorrir sem limites. Quero dançar na rua até cair o fogo de artifício, até saltar fora de mim, em jeito de êxtase colorido. Sensações intensas. Quero cair no enlevo de 2017. Desejo que esse fogo salpicante se transforme em chuva batizante e me inunde de paz, esperança, felicidade e muito amor.


Na verdade esses sentimentos partem de mim. Vêm de dentro.


2017 está a chegar. A contagem já começou. Preparam-se as garrafas de vinhos comemorativos, contam-se as uvas passas e uns segundos depois, entro no Novo Ano. Tudo volta ao início. Mas… parece tudo igual. Nada mudou!
Decidi que irei ser eu a fazer a mudança. Dentro de mim. Bom 2017.


30-12-2016


João Pires




domingo, 25 de dezembro de 2016

tinta permanente - João Pires - "Menina doce e meiga"

Menina doce e meiga que atravessas a noite de xaile ao peito. Vais a caminho do Natal. Para te sentares à mesa na ceia com os familiares mais próximos. Caminhas à beira do rio e as águas brilham com a luzes laranja que se vão derramando pela noite fora. Levas o bolo para a mesa da consoada. Atravessas ruas e sobes um deserto de escadarias de granito escuro. As sombras da roupa estendida às janelas, projectam figuras estranhas no chão. Luzes que vêm das janelas denunciam gentes que se reencontram. Se abraçam. Se beijam. Trocam presentes ou afectos. Provavelmente já se encontram sentados à mesa. 

tinta permanente - João Pires - "Menina doce e meiga"
tinta permanente - João Pires - "Menina doce e meiga"

E eu subo a rua já deserta, cheia de luzes de Natal e das montras das lojas agora vazias. Anúncios que ficam para trás, que perderam a sua razão de ser. O Natal fechou. O comércio encerrou há algumas horas. 
Lá ao fundo ainda vislumbro, na noite escura, um saco de compras colorido de tons dourados e vermelhos, com um anúncio qualquer que não consigo distinguir, a atravessar, em passo apressado a rua. 
O frio cai. Está na altura de encontrar um abrigo para passar a noite. Uma soleira de porta que me irá abrigar nesta noite de Natal. Só. Quero estar comigo! Viver esta noite com os meus pensamentos. As memórias ficaram lá atrás. Desvaneceram com o passar dos anos. Como aquelas fotos antigas que perderam quase toda a côr e têm um pequeno rasgo no canto, fruto do manuseamento. 
O futuro, nada me diz. Não existe esperança dentro de mim. Procurei, mas não a encontro. 
Agora, nesta noite do Deus menino, é o que importa. É o que conta. Só, nesta cidade iluminada mas fria. Fria de um abraço, de um aperto de mão. Fria de um sorriso.
Não há canto de pássaros. Recolheram com as suas famílias para longe. Para terras quentes, onde abunda sol. As flores fecharam-se nas suas pétalas e reservam-se em sementes para a próxima Primavera. Não há sol nem lua que possa guiar os três Reis Magos.
Aqui estou eu. Só. Olho agora para a palma das minhas mãos. Estão encardidas. Unhas sujas. Enrugadas pelo frio e com cicatrizes. Marcas do tempo. Algumas feridas estão abertas. Custam a fechar por causa do frio. Como no meu coração. O corte profundo na mão esquerda provoca dor constante. Já se tornou quase inconsciente. Está sempre cá dentro e não fecha.
Sento-me na entrada do Centro Comercial que agora está fechado.Estendo uma manta gasta no chão e abro e pouso a embalagem do bolo que me foi oferecido dos restos da confeitaria que agora está fechada.
Abro o pacote de vinho comprado no supermercado à última da hora, com os trocos suplicados à porta das lojas. Bebo o primeiro gole directamente da embalagem. Sinto um calor encher-me por dentro. Será que o Natal já chegou? Não consigo distinguir com nitidez os enfeites de Natal. Arranco um pedaço de bolo, fecho os olhos e agradeço a quem estiver a velar por mim. Momentaneamente reconfortado, encosto a cabeça à parede, embalada pelo álcool. Passa um cão na rua. Volta atrás e olha para mim. Com os seus olhos, implora por um pouco de calor. Aproxima-se e não encontra resistência. Enrosca-se nas minhas pernas. Adormeço, sem voltar a acordar!
João Pires 
25-12-2016

sexta-feira, 16 de dezembro de 2016

tinta permanente - João Pires - "Corre água no regato"

Corre água no regato em direcção ao lago, deixando um burburinho no ar. Os pássaros chilreiam, sem parar, no alto das árvores. O lago situado à frente da casa em madeira, permanece calmo, como sempre. Eu contemplo a paisagem em longas vistas. Chegas perto de mim. 

tinta permanente - João Pires - "Corre água no regato"
tinta permanente - João Pires - "Corre água no regato"

Sussurras-me ao ouvido palavras de amor. Abraças-me com o teu doce calor. Beijos orvalhados escorrem pelo pescoço. Subitamente, sinto um íntimo arrepio na alma. Os teus cabelos roçam a minha pele excitada. 

Não sei como aquela estrada feita de luz me trouxe até junto de ti. O céu está carregado de azul de fim de dia, sem nuvens. E os sabores do vento correm sem parar. E a luz das velas chegou, pois entretanto caiu a noite. Estou preso ao meu destino e tu estás no meu caminho. Sinto-me renascer. Encostas os teus lábios à minha orelha e cai um tremor para percorrer todo o corpo como um pequeno choque eléctrico. Momentos inesquecíveis. Arrepios em todo o corpo, fruto da ansiedade em te amar. 

Provocas-me essa energia indomável. Visões de janela aberta. Alerta de um novo corpo cheio de calor nas minhas proximidades. Toca-me. Sente-me. Abraça-me. A sensibilidade passeia à flor da pele. Nas costas, nos braços e nas coxas. Já não sei quem sou. Não sei de cor esse caminho!


João Pires

16-Dez-2016

domingo, 4 de dezembro de 2016

tinta permanente - João Pires - "O meu primeiro beijo"

O meu primeiro beijo aconteceu ontem. Ao som das ondas do mar. Com os pés enfiados na areia. Ondas de paixão? Ondas de puro prazer sentido. Cada minuto, cada olhar. Profundo. Doce. Rejuvenescer. 


tinta permanente - João Pires - "O meu primeiro beijo"
tinta permanente - João Pires - "O meu primeiro beijo"


Com um simples olhar. Como será possível segurar aquele momento nas minhas mãos? Segurar-te-ei nos meus braços. Olhar de veludo com um mar inteiro dentro. O perfume da tua pele invadiu-me, misturado com o almiscarado de sonhos leves em forma de beijos. Suaves. Beijos de olhos abertos. 

Espontâneo é o teu sorriso. Aberto como o Oceano. E queres voar mais alto. Sempre mais. E desenho-te um poema na pele do teu pescoço. Selo-o com um beijo prolongado. E o bálsamo da tua intuição transforma-se em oásis para mim. Um abraço terno mas cheio de calor sela uma amizade inquebrável. Sinto-me a voar de novo. Vou voltar ao mar. Planar até atingir a perfeição. 

Dá-me a tua mão. Vens?

tinta permanente - João Pires - "Quando eu era pequenino"


tinta permanente - João Pires - "Quando eu era pequenino"

Quando eu era pequenino

Tinha mesmo acabado de nascer. Ainda não abria os olhos mas já reconhecia o perfume de uma mulher. Foi amor ao primeiro contacto, logo depois de nascer. E tudo era novo. O dia e a noite. Dormir e permanecer acordado. Nasci com o sono trocado. E sempre sono leve. Atento ao que se passava à minha volta. Mas precisava de sentir o perfume da tua pele a todo o momento. Esse era o meu sinal de que tudo estava bem. A minha segurança. O meu porto de abrigo.
Depois vieram as primeiras visitas. A do meu pai que logo sorriu para mim. Depois outros olhos curiosos e bem abertos. A do meu tio que quase enjoou para cima de mim. Deve ter sido da emoção de ver um ser acabado de nascer.

tinta permanente - João Pires - "Quando eu era pequenino"
tinta permanente - João Pires - "Quando eu era pequenino"


Quando eu começava a chorar, vinha logo a mama. Mesmo que não tivesse fome e fossem apenas dores de barriga, servia para acalmar. Trazia-me o conforto que ainda hoje guardo no meu coração. Eu aprendi que se chorasse , tu me davas a mama e isso era reconfortante. Ou vinha o pai e pegava em mim ao colo. Também sabia bem. Quase que não tive tempo para aprender a dormir sozinho. Vocês embalavam-me no berço ou seguiam de carro para dar um passeio, à noite, à beira-rio e eu acabava por adormecer ao som do motor do carocha e das ruas feitas de paralelos. Ficavam para companhia, apenas as luzes laranja reflectidas na água calma do rio. Até adormecer.

Naquele dia cinzento e chuvoso de Inverno. Foi o dia que escolhi para nascer. Depois percebi que me aguardava a doce Primavera de 66. Os perfumes da natureza misturavam-se com os teus. O perfume de mãe e as essências florais que nunca esquecerei.

Pudera eu segurar nas minhas mãos nem que fosse por um dia, por uma hora, por um minuto, todas as coisas boas que me proporcionaram durante esta caminhada. A beleza das coisas, de uma simples flor, um sorriso, uma carícia, uma brincadeira, uma malandrice, o céu azul, as ondas do mar, ah, essas ondas do Oceano Atlântico, subir à montanha, uma música, uma palavra. Sabes? Sentimentos dos bons.

Os teus cuidados, a tua sopa.
Mas não é sempre assim. Percebi que ao fim de todos este caminho, a vida nem sempre é assim. Tenho a solução.
Primeiro tenho que esvaziar o meu coração como quem arruma uma gaveta. Depois volto a preenchê-lo, cuidadosamente. Um por um. Só com coisas que quero guardar para sempre!

Por cima ficará o sonho!

3-Dez-2016

João Pires

domingo, 27 de novembro de 2016

tinta permanente - João Pires - "A noite caiu"

A noite caiu. 

Cá em cima. A luz sobra por cima das muralhas. A escuridão reina à volta. Sei que estás lá no alto, dentro do campanário dos sinos da concatedral. Eu sou o sonho da noite que vem fazer-te companhia. Fico à espera na tua mesinha de cabeceira, à espera que embales os olhos nas páginas de um livro qualquer. As pálpebras começam a forçar a chegada do sono e eu preparo-me. 


tinta permanente - João Pires - "A noite caiu"
tinta permanente - João Pires - "A noite caiu"


Entro dentro de ti, sorrateiramente e acendi duas velas. E tu que vês? A luz tênue ao fundo do corredor. E vens ao meu encontro. De mansinho. Deixas que eu me infiltre dentro de ti para te mostrar coisas imaginárias. E o deslumbre começa. 

#JoaoPires #TintaPermanente

Espero por ti todos os dias - João Pires

domingo, 20 de novembro de 2016

tinta permanente - João Pires - "Chove lá fora"

Chove lá fora. 
A noite caiu fechando o céu cinzento. Ao som da música. Violinos e piano ajudam a chegar a noite. Serena. Agora são as luzes dos candeeiros da rua que entram pelos vidros das janelas, salpicados por fora com gotas de chuva. Parecem pequenas pérolas brilhantes de chuva. Como tu. E a lua nunca mais chega. Talvez não venha esta noite. Afinal não é garantido que apareças esta noite. Porquê Lua? Vejo-te nos meus sonhos. Dá-me a tua mão e vem comigo passear pelas nuvens dos meus sonhos. 


tinta permanente - João Pires - "Chove lá fora"
tinta permanente - João Pires - "Chove lá fora"

Insano ou sensível?
Isso é viver!
Canção de amor ao piano. Velas em cima da mesa. Luz ténue vinda do exterior. E sonho que estás ali, ao meu lado.
E debaixo da tua luz de prata, dou-te um beijo molhado. Chove lá fora e não te vejo. Beijo-te nos meus delírios.
Como é viver depois de ti?
Viver na luz. Engraçado. Sempre me disseram isso. Vives no mundo da lua. Afinal eles têm razão. Estás na lua
Vejo amor em ti, com todo o meu coração.
Mas o amor de uma mulher é poderoso. É mais forte que um ataque na guerra.
Só os sábios cometem loucuras de amor. E como chove lá fora. As pérolas de luz continuam coladas ao vidro.
Quero ser sábio!

domingo, 6 de novembro de 2016

tinta permanente - João Pires - "Silêncio"

tinta permanente - João Pires - "Silêncio"
tinta permanente - João Pires - "Silêncio"
Viver o silêncio dentro da minha alma. Quando escorrega o mutismo das palavras sobre mim. E eu quero respirar profundamente. Em silêncio! Quem sou eu? Quero aprender a conhecer-me. A mapear de cor a alma. Em silêncio. No silêncio da escrita sufocante e atrevida. Cai a noite taciturna, com a bruma a emergir do rio e invadir as margens. Em total silêncio. E eu olho-me ao espelho, fecho os olhos e escuto o sangue a correr nas veias. Em silêncio. Descobri a riqueza que esse momento encerra. Em silêncio. Como posso transportar os segredos em silêncio? As palmas das mãos denunciam suor. O suor do silêncio que me invade os meus pensamentos mais preciosos. Já não sinto arestas na profundeza dos meus sentimentos. Tenho-me amarrado ao silêncio, que me  desafia a viver! A sentir a vida, contemplando-a em silêncio. Esvaziei o coração de ruídos. Preenchi-o com o silêncio mais puro. Melancólico quando cai a noite e o torpor vem resgatar para embalar no sonho. O silêncio também sabe acariciar o peito, livrando-o do aperto. E entra na alma. Carrego o silêncio de ser teu.

João Pires

5-11-2016

sábado, 5 de novembro de 2016

tinta permanente - João Pires - "Para trás ficou uma pradaria verde de esperança"

Para trás ficou uma pradaria verde de esperança, de braços abertos para o regresso. 

A força da coragem para desbravar novos mundos debaixo de torrentes de água, bateladas de ondas gigantes.



Com os meus suspiros, encantei mágoas. Desamarrado das vistas, desprendido dos perfumes da terra, atiro-me sem devaneios ao oceano, na busca da perfeição. 

A ilusão do horizonte.

texto e foto de João Pires

sexta-feira, 4 de novembro de 2016

tinta permanente - João Pires - "O encanto da sereia"

Vou entrar no mar. Deixo o meu coração em terra. Quero surfar até atingir a linha do horizonte. Primeiro vem a espuma das ondas, depois a ondulação forte e por fim um oceano inteiro por explorar. Lá em cima pairam as gaivotas, quando está bom tempo. Hoje o mar está cinzento. Estará de mau humor?

tinta permanente - João Pires - "O encanto da sereia"
tinta permanente - João Pires - "O encanto da sereia"


Eu quero, assim mesmo, trilhar esse caminho marítimo. Quem sabe encontrar a musa inspiradora que me encanta a alma. Ouço para lá do horizonte o belo canto da sereia, que mil perigos encerra! Saberei permanecer atento, lá bem do alto, no cesto da gávea.

Texto e foto
+Joao Pires

terça-feira, 1 de novembro de 2016

tinta permanente - João Pires - "Ainda faço anos"

Mãe, onde está o meu bolo de aniversário? Aquele que sabias fazer tão bem. Aquele bolo com côco ralado por cima ou com bolacha Maria molhada em café. E os amigos à minha volta e também à volta do bolo dos meus anos. O brilho dos olhos saltava cá para fora no momento em que o bolo entrava na sala já com as velas acesas e todos começavam a cantar os parabéns.
E como eu comia a papa debruçado na varanda, a observar as pombas do vizinho. 
- E vai mais uma colher, dizia a minha mãe. Como se fosse ontem.
- Lembras-te mãe? Foi ontem. Eu não queria comer. Mas tu não desististe de mim.
E mais uma colher. E mais outra. Agora sei bem o que é dar colheres de papa.
Mas hoje faço anos. Primeiro recebi o carro gigante. Um carro vermelho em lata, onde eu cabia lá dentro. O meu primeiro mundo.


tinta permanente - João Pires - "Ainda faço anos"


Um dia fui mordido pelo Piruças. Cão raivoso de passar o dia acorrentado junto às garagens nas traseiras do apartamento. Triste ladrar.
Depois veio a bicicleta usada. Bicicleta verde oferecida pelo meu primo. Já não lhe servia. Mas a partir daquele momento, passou a ser a minha bicicleta. Corremos mundos dia após dia, após as aulas. Voltas sem fim no campo das traseiras de casa. Umas vezes só. Para aperfeiçoar a volta. Melhorar aquela curva e apurar a descida da rampa. Sabes? Uma vez esfacelei os nós da mão direita contra o muro de cimento rugoso e outra bati com o corpo contra a parede. Não doeu nada!

E a vizinha convidou para descer ao seu quintal. Acabou de matar um frango. Não me sai da cabeça a imagem do galináceo a correr pelo quintal fora, sem a cabeça. E o arroz de cabidela estava saboroso.
Como eu gostava de regressar ao prédio onde nasci, para saber se ainda cantam os parabéns. E se a pistola prateada ficou por lá. E saber se o vizinho ainda dispara pequenas batatas com a sua poderosa fisga de elásticos, para acordar o seu amigo do lado de lá da rua.
E eu continuava a equilibrar a minha bicicleta em cima de tábuas, em jeito de concurso com os meus amigos. Por onde anda a minha bicicleta verde?

Já não faço anos. Agora celebro o dia que acabou de nascer. É sublime.
Será que o meu pai me vai trazer uma bicicleta nova no Natal ? 

Quero percorrer estradas sem fim, rasgar horizontes, viver de ar e vento e beber o céu azul.

João Pires


29-10-2016

domingo, 23 de outubro de 2016

tinta permanente - João Pires - "Aperta-me até ao fim do horizonte"

Aperta-me até ao fim do horizonte, onde está ancorado o navio da paixão. Lá fora, onde os homens circulam na multidão, mas não te vejo, não te sinto. Apenas ouço acordes do violino. E a chuva cai. As gotas vão escorrendo lentamente. Uma por uma, nas janelas do meu olhar. Pestanejo como quem passa a mão no vidro para ver melhor.

Mas tu não estás lá. Os raios de sol teimaram em não voltar. E eu vou desenhando no vidro embaciado. Escrevendo poesia da vida. O silêncio tomou conta de mim. As notas musicais do piano, tocam baixinho, lá ao fundo, em jeito de suave melodia.

Onde estás? Aperta-te junto a ti. Sei que estás lá em cima, junto das estrelas. Um dia partirei à tua procura. Vais dar-me a tua mão como quando passeavas comigo junto à praia e fazias buracos na areia. E enrolavas uma folha de jornal e acendias a chama. A chama do amor de um pai por um filho. Não me sai do coração essa imagem.

E os navios, lá longe, parecem ancorados no horizonte. Mas não. Vão-se movendo lentamente. E tu não estás lá. Sorris para mim. Como sempre foi.
No fim da vida, acompanhei-te até ao caminho para o céu. A estrela, lá em cima, já brilhava à tua espera.

Despedi-me uma única vez de ti. Não doeu nada. Sei que continuas a brilhar para mim.
Todas as noites venho à janela e procuro por ti! Guardo uma única fotografia, onde o teu sorriso brilha. Brilha tanto como a estrela onde vives.

Dás-me a tua mão? Só mais uma vez. Vá lá. Vamos acender a chama na praia? Só mais uma vez.
Como eu gostaria de voltar a ver o brilho dos teus olhos. E sei que brilhas. És a minha estrela!
Continuo a desenhar no vidro embaciado, enquanto chove lá fora. Mas não te consigo ver.

A desenhar, devagar, um poema!

João Pires
22-10-2016

domingo, 9 de outubro de 2016

Acordei cedo, com o nascer do sol

Acordei cedo, com o nascer do sol. Decidi que vou mudar a minha vida. Vou renascer para mudar o mundo. Um mundo com céu azul, alegria na cara das pessoas, água e comida para todos. Um mundo governado pelas crianças e pelos idosos, com os Ministérios da Alegria, da Bondade, do Bem-Estar, da Paz e do Amor. Um mundo onde não existem espelhos. Onde o céu e a terra partilham o horizonte. Onde todas as cores possam brilhar no arco-íris. Onde apenas existe o presente. Onde é permitido sonhar de dia. Ali já acontece o paraíso. A moeda de troca é o sorriso.

foto de João Pires
João Pires

Acordei cedo, com o nascer do sol

Acordei cedo, com o nascer do sol. Decidi que vou mudar a minha vida. Vou renascer para mudar o mundo. Um mundo com céu azul, alegria na cara das pessoas, água e comida para todos. Um mundo governado pelas crianças e pelos idosos, com os Ministérios da Alegria, da Bondade, do Bem-Estar, da Paz e do Amor. Um mundo onde não existem espelhos. Onde o céu e a terra partilham o horizonte. Onde todas as cores possam brilhar no arco-íris. Onde apenas existe o presente. Onde é permitido sonhar de dia. Ali já acontece o paraíso. A moeda de troca é o sorriso.

foto de João Pires
João Pires

Acordei cedo, com o nascer do sol

Acordei cedo, com o nascer do sol. Decidi que vou mudar a minha vida. Vou renascer para mudar o mundo. Um mundo com céu azul, alegria na cara das pessoas, água e comida para todos. Um mundo governado pelas crianças e pelos idosos, com os Ministérios da Alegria, da Bondade, do Bem-Estar, da Paz e do Amor. Um mundo onde não existem espelhos. Onde o céu e a terra partilham o horizonte. Onde todas as cores possam brilhar no arco-íris. Onde apenas existe o presente. Onde é permitido sonhar de dia. Ali já acontece o paraíso. A moeda de troca é o sorriso.


Acordei cedo, com o nascer do sol

Acordei cedo, com o nascer do sol. Decidi que vou mudar a minha vida. Vou renascer para mudar o mundo. Um mundo com céu azul, alegria na cara das pessoas, água e comida para todos. Um mundo governado pelas crianças e pelos idosos, com os Ministérios da Alegria, da Bondade, do Bem-Estar, da Paz e do Amor. Um mundo onde não existem espelhos. Onde o céu e a terra partilham o horizonte. Onde todas as cores possam brilhar no arco-íris. Onde apenas existe o presente. Onde é permitido sonhar de dia. Ali já acontece o paraíso. A moeda de troca é o sorriso.


terça-feira, 4 de outubro de 2016

Acordei e olhei ao espelho

Acordei e olhei ao espelho. O cabelo começa a falhar e está baço. Deixo a barba por fazer, pois disfarça algumas marcas do tempo. Mas na verdade, não me preocupa verdadeiramente os sinais exteriores dos anos. Decidi que vou gastar o meu dinheiro para uso pessoal. Parei de me preocupar com os netos e com as suas notas a matemática. Já não estou disposto a sustentar um Estado que não me proporciona um serviço de saúde, nem um serviço de justiça e ainda por cima vejo os meus netos a serem desensinados na escola.  

Joao Pires - Tinta Permanente
Acordei e olhei ao espelho


Não tenho vontade em sustentar por mais tempo a minha família. Eles que vão trabalhar. Já são maiores e já têm duas licenciaturas cada um. Hoje vou comprar o fato mais elegante que o meu dinheiro puder pagar. E uma gravata a condizer. Não é que eu precise dele para trabalhar. Já estou reformado. Decidi que a partir de hoje, vou deixar de me angustiar com tretas de nada. E até com coisas mais sérias.

Vou partir para o amor. Vou arranjar uma namorada para passear até à esplanada e tomar um café com vista para o mar. Sou vaidoso, sem falsas modéstias. Mas nada de ser modernaço. Cai no ridículo. Eu tenho um tempo. O meu próprio tempo. Gosto de manter-me actualizado, é verdade. Mas apenas o suficiente para saber como vai o mundo. Estou mais preocupado com o estado do tempo. Será que amanhã vai chover? Recusei ir viver com os filhos e netos. Gritarias fazem-me tonturas e deixam-me cansado. A menos que enfiasse uns tampões nos ouvidos. Mas depois não podia ouvir o relato do futebol. Gosto de sair com o Neca, o Manel, a Luísa e a Isabel. São todos da minha geração. E divirto-me ao falar de outros tempos que só nós vivemos.

Tenho um hobby. Jardinagem. Que bom que é remexer na terra e plantar flores. O pior são os bicos de papagaio que vêm a seguir. Gosto de dar uma voltinha no meu carocha dos anos 70, amarelo-canário. Os meus filhos convenceram-me a comprar um carro novo, por questões de segurança, que apita por tudo e nada e acende uma data de luzes, junto ao conta-quilómetros. Manda-me ir à revisão sempre nas piores alturas. Ora tenho consulta no dentista, ora vou visitar a prima Bete ao lar. Enfim, uma maçada. Os safadinhos dos meus netos ainda não tem a carta de condução e já estão a candidatar-se ao carro.

- Avô, quando tiver a carta, vais emprestar-me o carro, certo?

Gosto de ouvir os meus netos. Gosto de ter uma nova perspectiva da vida. Respiram esperança do nada. Já deixei de usar a expressão “no meu tempo é que era bom”. Guardo-a para mim, em jeito de mantra. Mas só para mim. Aceito convites para tudo o que é interessante. Passeios, actividades culturais, inaugurações e tantas outras coisas que a memória não me deixa lembrar. De preferência gratuitos. Deixei de gastar saliva e voz a debater ideias ocas. Digo as palavras estritamente necessárias. As palavras estão caras. Prefiro ouvir uma data de baboseiras e divirto-me. Até na TV. Estou atento para perceber quando é que vem de lá algo de interessante. O problema são as dores musculares que aparecem de quando em vez, mas decidi que não vão ser o meu problema. O problema é delas. Vou à procura de uma religião que me permita ter fé e acreditar no mundo. Mas acreditar, sobretudo em mim. Se eu não me sentir feliz, como poderei fazer sorrir os outros? Há dias que sinto uma enorme vontade de rir. Rir a bom rir. Rir a bandeiras despregadas. Uma vez ri tanto que me saltou a dentadura e fiquei com a boca em forma de figo chocho. Já não faço caso do que dizem a meu respeito e muito menos do que pensam da minha pessoa. Sou feliz assim.
João Pires
4 de Outubro de 2016

Acordei e olhei ao espelho

Acordei e olhei ao espelho. O cabelo começa a falhar e está baço. Deixo a barba por fazer, pois disfarça algumas marcas do tempo. Mas na verdade, não me preocupa verdadeiramente os sinais exteriores dos anos. Decidi que vou usar o meu dinheiro para uso pessoal. Parei de me preocupar com os netos. No sentido em saber se tirou positiva a matemática. Já não estou disposto a sustentar um Estado que não me proporciona um serviço de saúde, nem um serviço de justiça e ainda por cima vejo os meus netos a serem desensinados na escola.  

Joao Pires - Tinta Permanente
Acordei e olhei ao espelho


Não tenho vontade em sustentar por mais tempo a minha família. Eles que vão trabalhar. Já são maiores e já têm duas licenciaturas cada um. Hoje vou comprar o fato mais elegante que o meu dinheiro puder pagar. E uma gravata a condizer. Não é que eu precise dele para trabalhar. Já estou reformado. Decidi que a partir de hoje, vou deixar de me angustiar com tretas de nada. E até com coisas mais sérias.

Vou partir para o amor. Vou arranjar uma namorada para passear até à esplanada e tomar um café com vista para o mar. Sou vaidoso, sem falsas modéstias. Mas nada de ser modernaço. Cai no ridículo. Eu tenho um tempo. O meu próprio tempo. Gosto de manter-me actualizado, é verdade. Mas apenas o suficiente para saber como vai o mundo. Estou mais preocupado com o estado do tempo. Será que amanhã vai chover? Recusei ir viver com os filhos e netos. Gritarias fazem-me tonturas e deixam-me cansado. A menos que enfiasse uns tampões nos ouvidos. Mas depois não podia ouvir o relato do futebol. Gosto de sair com o Neca, o Manel, a Luísa e a Isabel. São todos da minha geração. E divirto-me ao falar de outros tempos que só nós vivemos.

Tenho um hobby. Jardinagem. Que bom que é remexer na terra e plantar flores. O pior são os bicos de papagaio que vêm a seguir. Gosto de dar uma voltinha no meu carocha dos anos 70, amarelo-canário. Os meus filhos convenceram-me a comprar um carro novo, por questões de segurança, que apita por tudo e nada e acende uma data de luzes, junto ao conta-quilómetros. Manda-me ir à revisão sempre nas piores alturas. Ora tenho consulta no dentista, ora vou visitar a prima Bete ao lar. Enfim, uma maçada. Os safadinhos dos meus netos ainda não tem a carta de condução e já estão a candidatar-se ao carro.

- Avô, quando tiver a carta, vais emprestar-me o carro, certo?

Gosto de ouvir os meus netos. Gosto de ter uma nova perspectiva da vida. Respiram esperança do nada. Já deixei de usar a expressão “no meu tempo é que era bom”. Guardo-a para mim, em jeito de mantra. Mas só para mim. Aceito convites para tudo o que é interessante. Passeios, actividades culturais, inaugurações e tantas outras coisas que a memória não me deixa lembrar. De preferência gratuitos. Deixei de gastar saliva e voz a debater ideias ocas. Digo as palavras estritamente necessárias. As palavras estão caras. Prefiro ouvir uma data de baboseiras e divirto-me. Até na TV. Estou atento para perceber quando é que vem de lá algo de interessante. O problema são as dores musculares que aparecem de quando em vez, mas decidi que não vão ser o meu problema. O problema é delas. Vou à procura de uma religião que me permita ter fé e acreditar no mundo. Mas acreditar, sobretudo em mim. Se eu não me sentir feliz, como poderei fazer sorrir os outros? Há dias que sinto uma enorme vontade de rir. Rir a bom rir. Rir a bandeiras despregadas. Uma vez ri tanto que me saltou a dentadura e fiquei com a boca em forma de figo chocho. Já não faço caso do que dizem a meu respeito e muito menos do que pensam da minha pessoa. Sou feliz assim.
João Pires
4 de Outubro de 2016

sábado, 24 de setembro de 2016

tinta permanente - João Pires - "Reflexos de um Barco"

Sou um porto de mar, um porto de abrigo. Barcos grandes e pequenos todos eles necessitam de uma paragem para reabastecer. E pela noite fora, o farol, lá em cima, emite a sua luz, que muitas vezes se perde no nevoeiro da noite. Mas quem vem do alto mar, procura sempre a luzinha que o vai guiar até ao porto, para em boa hora descansar. 


barco no rio calmo
Reflexos de um Barco



Quantas tempestades sofri, quantos abanões senti, e depois vem uma gaivota lá no alto, fazer um sobrevoo para cumprimentar quem por ali passa. 

Pele húmida, cabelo salgado, olhar infinito. 
Vida feita de rotinas a solo. 
Velas esticadas, leme ao centro, mãos em forma de concha e olhar para o horizonte. 
Agora não para os meus pés. 
Dá-me vertigens. 
Horizonte à vista, embalado pela doce ondulação de Outono. 

Descansa agora que amanhã vem outro.

#JoaoPires#TintaPermanente


quinta-feira, 28 de julho de 2016

tinta permanente - João Pires - "Visita ao Oceanário de Lisboa"

tinta permanente - João Pires - "Visita ao Oceanário de Lisboa"

Finalmente chegou o dia para revisitar o Oceanário de Lisboa na companhia dos pais e da Mary a sua irmã mais nova. Depois de algumas voltas pela zona da EXPO’98 lá  encontraram um lugar ao sol para estacionar o carro. Estava calor. Devia estar cerca de trinta graus à sombra. Não corria uma brisa sequer. Esta zona de prédios modernos, que é como quem diz, pois já têm quase vinte anos, e uma zona de ruas traçadas a esquadro. Rectilíneas, ruas largas, com árvores dos dois lados mas ainda assim, não o conseguem eliminar o calor abafado corre em jeito de baforada.

tinta permanente - João Pires - "Visita ao Oceanário de Lisboa"
tinta permanente - João Pires - "Visita ao Oceanário de Lisboa"


Chapéus, óculos de sol, garrafa de água e seguem em direção ao rio para se orientarem melhor.
Atravessam avenidas, passam por rotundas e ate pelo famoso cone gigante de cerâmica ladrilhada de cor laranja, donde escorre água pelo topo, criando uma sensação de frescura passageira com os seus salpicos. Desta vez não imita por completo o vulcão, pois era costume expelir água como uma baleia, do topo, de minuto a minuto, mas desta vez esta sem atividade.

Mais à frente, encontram de queda de água em forma de cascata. Param para tirar uma foto e para aproveitar aquele movimento de água que cria mais um momento de alívio ao calor.
Por trás da queda de água, está um lago ladeado por duas paredes revestidas a cerâmica e com umas frases de escritores portugueses famosos.
- Mary, vamos por aqui, sugeriu Tigas, apontando para o pequeno caminho de pedras dispostas por cima do lago.
No baixo fundo do lago, estão dispostas pequenas pedras de granito, sendo facilmente visíveis da superfície. Tigas salta para uma abertura em forma de janela gigante numa das paredes.
- Tira uma foto, pediu.
- Vamos comprar os bilhetes para entrar no Oceanário, sugeriu Gabriela.
Ao dar a volta à parede do lago, depararam com uma fila mais ou menos grande para comprar bilhetes. Eram onze e meia da manhã. Felizmente a fila faz-se debaixo de uma cobertura criando uma zona de sombra compactadamente fresca.

Passa uma grávida à frente de toda a fila, para comprar os bilhetes.
- Porque é que ela passou à frente de todos?, perguntou a Mary.
- As grávidas têm prioridade sobre as outras pessoas. Carregam um bebé no ventre.
Finalmente chegou a vez de Mary e Tigas.
- Permanente ou permanente e temporária? perguntou a moça da caixa.
- Eu quero a permanente e a temporária, pediu Tigas.
- Permanente e temporária para quatro, sendo dois adultos e duas crianças.
- Então sugiro o bilhete familiar, disse a rapariga algo forte, de cabelos compridos, óculos a escorregar pelo nariz, mas de mãos delicadas, sem qualquer embelezamento extra.
"Multibanco ou VISA", pergunta o terminal de pagamento.
- Ainda não percebi a diferença, se o meu cartão é de débito, mas um dias destes vai fazer-se luz. Estas alterações de pagamento não foram devidamente divulgadas, diz o pai.
Por cima do balcão de atendimento, está um cartaz publicitário. "Venha passar a noite com os tubarões". Tigas fitou pensativamente o cartaz.
- Vamos entrar, pede o Tigas já impaciente.
Mary segue o rasto do irmão mais velho.
- Por onde vamos começar? pergunta Gabriela.
- Vamos primeiro ver a exposição temporária.
Antes de entrarem, deixaram as mochilas nos cacifos no piso zero do Edifício do Mar. Mary colocou uma moeda de um euro, marcou o código secreto e fechou a porta.
- Não te esqueças do código, pediu Tigas.

Logo à entrada são pedidos os bilhetes para validação. De seguida passam por um corredor escuro e começam a ouvir uma música suave, como se viesse das profundezas do mar. Mais ao fundo, deparam com um aquário gigante, em forma de "U", com uma base de areia clara, vegetação constituída por plantas aquáticas distribuída pontualmente, troncos em madeira de árvores provenientes da Escócia e da Malásia, rocha vulcânica dos Açores e pequeninos coloridos peixes tropicais de água doce.

A música continuava a espalhar-se pela atmosfera fresca, com uma certa brisa marítima a percorrer o espaço. Tudo o que não fosse o aquário, era negro: paredes, chão e degraus para observar o aquário. A parte de trás e a zona superior do aquário estão fortemente iluminadas, criando um detalhe e cores únicas das plantas submersas. Esta exposição também pretende chamar a atenção quanto à captura e comercialização de peixes ornamentais, bem como promover a sustentabilidade ambiental.
A beleza da imperfeição, através da recriação de florestas tropicais submersas, leva Tigas e Mary a viver uma experiência única. São mágicos e enigmáticos ecossistemas, oferecendo contemplação, relaxamento e simplicidade, convidando a descobrir a natureza moldada pelo tempo, décadas, centenas de anos, envelhecidos de forma natural, orgânica e bela.
Já passava da uma da tarde e Mary começava a sentir um ronco no estômago. Provavelmente do vazio.
- Tenho fome, reclamou Mary.
- Vamos fazer uma pausa, sugeriu a mãe.
Vieram até cá fora, para uma zona de sombras proporcionada pelos pinheiros mansos, plantados à beira-rio.
Sentaram-se nos bancos coloridos dispostos ao longo do rio. Sumos de fruta, sanduíches de frango e de queijo fresco e beterraba. Massa chinesa com vegetais e algas marinhas com molho de soja.
O ar estava abafado, mesmo à sombra das árvores. Não corria brisa. A água do rio batia ritmadamente na margem de pedra. Mais ao longe vê-se a ponte Vasco da Gama que parece nascer na margem norte e desaparece no horizonte. A margem sul não se consegue avistar daquele ponto, dando a ideia que o mar começa ali e só termina noutro continente. Lá em cima, vão passeando lentamente as cabines do teleférico, mostrando uma perspectiva aérea da zona da EXPO'98.

De súbito, começa a arrefecer, o céu fica carregado de nuvens, ameaçando uma tempestade em pleno Verão. Estranhamente, Mary e Tigas começam a flutuar e a viajar para o interior do Oceanário. Escureceu definitivamente. O sol não voltou. Começaram a explorar o interior do Oceanário, sós. O último visitante tinha acabado de passar por eles, mas não tinha dado conta da sua presença. A luz começou a diminuir. Os tubarões destacam-se no aquário principal, através da parca luz vinda do alto. Mary e Tigas não conseguiam encontrar a saída. Quem sabe se os tubarões são boa companhia para dormir? Com aquele olhar intimidante?
- Nem pensar, diz Mary. Quero sair daqui para fora e já!
- Se não encontrarmos uma saída, vamos ter que arranjar outra solução, sugere Tigas.
- Aquela pele áspera, os dentes enormes, a velocidade estonteante e o olhar intenso dos tubarões, provoca-me arrepios na espinha.
- Tem calma, tudo há-de correr bem.
Envia uma SMS aos pais. Eles hão-de saber como nos tirar daqui para fora.
- Ups. Não trouxe o telemóvel.
- Não quero passar aqui a noite.
- Vamos ter com a Micas e a Maré.
- E qual é o caminho?
- Basta seguir a direcção do Oceano Pacífico, para encontrar as lontras marinhas.
Mais uma vez passam junto ao aquário principal e cruzam com um tubarão gigantesco, com os olhos postos nas crianças. Afastaram-se imediato do vidro.
- Parece que vamos ter que passar a noite por aqui, diz Tigas, olhando em volta à procura de uma saída.
- Brrr. Não queria nada, treme Mary.
- Tigas olha para o interior do aquário principal, enquanto se dirigem para a ala do Oceano Pacífico.
- Para onde estás a olhar, Tigas?
- Parece que os peixes estão a diminuir a sua actividade. Parece que se estão a preparar para dormir.
Entretanto chegam ao Oceano Pacífico e encontram a Micas e a Maré de mãos dadas enquanto dormem. Eles acharam a situação enternecedora.
- Na verdade, as lontras marinhas dão as mãos no alto-mar em pequenos grupos do mesmo sexo, para não se perderem e não por questões afectivas.
- Não deixa de ser ternurento, diz Mary, ao apreciá-las.
Arranjaram um lugar com vista para o aquário principal, mas a uma distância segura, pois os tubarões ameaçavam partir o vidro para vir buscá-los. Sentaram-se, pousaram a cabeça entre os joelhos e deram as mãos, tal como a Micas e a Mare. Talvez para não se perderem neste sonho.
Esta é uma experiência que estimulou os sentidos da Mary e do Tigas até ao limite, através da visão de um cenário submerso e misterioso. De vez em quando, ouvem-se uns ruídos, como que ruídos abafados vindos do aquário principal. Uns lamentos do fundo do Oceano. Qual seria a espécie capaz de produzir aqueles sons profundos? Finalmente chegaram os primeiros raios de luz. Para além da noite, de manhã o Oceanário também foi só da Mary e do Tigas, pois passaram invisíveis ao lado dos tratadores e aquaristas. Quem diria que os tubarões podem ser uma boa companhia para dormir? Os 8.000 animais e plantas tornaram-se na melhor companhia para passar uma noite fora de casa, proporcionando uma experiência única. Como é que se alimentam tantas criaturas marinhas, como é que se mantém a temperatura de um aquário com cinco milhões de litros de água, tudo isto são questões que deixam Tigas fascinado. Mary deixou-se encantar pela ternura de Micas e Maré.
- Acorda, pediu o pai com um beijo na testa de Tigas.

A mãe beijou Mary no doce pescoço. Tudo não passou de um sonho nocturno. Mas não esquecem que o Oceanário é o espaço ideal para envolver e sensibilizar para a conservação da natureza.

tinta permanente - João Pires - "Visita ao Oceanário de Lisboa"
http://tinta-permanente.blogspot.pt/2004_07_01_archive.html#109110658022106129https://www.oceanario.pt/