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sexta-feira, 20 de janeiro de 2017

tinta permanente - João Pires - "Abraça-me"

Abraça-me


Vem voar comigo. Amizade sincera de raiz profunda, que nenhuma tempestade te consiga arrancar da terra. Quando irei saber como consolar alguém ou oferecer abrigo? Liberto-me do sofrimento, sem escapar à dor.


Dá-me um abraço.
A melhor pessoa para aliviar as minhas dores, males e angústias, sou eu mesmo.


Dá-me um abraço.
Onde estão os beijos que agora preciso?


tinta permanente - João Pires - "Abraça-me"
tinta permanente - João Pires - "Abraça-me"



Abraça-me.
Olho para o céu azul e vejo o sol brilhante. Não estou lá para voar contigo.
Sei que a Lua brilhará para mim, mas só mais tarde.
Luz morna e brilhante numa tarde fria. Sou rei sol, sou espírito de diversão numa estrada deserta sem fim. O caminho é belo, mesmo assim. Aprecio tudo à minha volta. A natureza está quase despida. Vegetação pardacenta.
Sigo em frente, mas a geografia dos afectos atrapalha-me a viagem.


Abraça-me.
Noite de luzes rolantes, caminhos sem destino. E a Lua lá em cima já brilha. Imaginei ter visto um rosto conhecido. Mas depressa descobri que afinal não eras tu. Desencontros.


Abraça-me, sem fazeres perguntas.
O teu rosto que me iluminou tantas vezes, que me deixou o coração sempre mais feliz deixou agora marcas dentro de mim.
O sol foi desaparecendo suavemente, com a promessa de voltar a amanhã. Chegou o tempo das folhas caídas e do vento frio. Foram-se os dias longos. Tornam-se aborrecidos e efémeros. E tu teimas em não chegar.


Por favor, abraça-me agora.
Passou a reinar a noite escura, dos cobertores e das mantas. Das lareiras e aconchegos. E os sons agudos apitam lá fora, ao longe. Serão vozes humanas a suplicar clemência? Desfilam ainda notas musicais em catadupa desordenada, marteladas num piano qualquer de cauda preta. Mas tu já estás ao meu lado.


Abraça-me aqui e agora.
Como se não houvesse mais estrada para percorrer. Ilumina-me com o brilho dos teus olhos. Procuro guardá-lo dentro de mim. A candura do teu sorriso faz despertar em mim a Primavera dos sentidos. Afinal tu és a minha Lua. Agora já vejo estrelas no céu escuro.


Abraça-me até ser de manhã.


19-01-2017

João Pires

sábado, 7 de janeiro de 2017

tinta permanente - João Pires - "Árvore Desnuda"

Árvore Desnuda

Árvores que correm desnudas pela relva verde dos campos. Erguem os seus braços aos céus, agora sem folhas. Braços molhados pela chuva de Inverno. Exalam o cheiro da chuva debaixo dos seus ramos.De súbito surge o sol tímido na tarde fria. E a paisagem estende-se por vales a perder de vista. Árvores esvaziadas de folhas que já não balançam ao vento. Soltaram-se e voaram. Árvores de corpo nu como um homem sem camisa. Ao frio gélido de Dezembro. Galhos emaranhados e secos de árvores adultas. Ramos mortos. Perigosamente entrelaçados. À espera da poda de Janeiro. Cicatrizes de cortes do ano anterior. O mesmo vento que levou as folhas no Outono passado, alisa agora os cabelos da mulher seminua.
Árvores desnudas pela cidade deserta esperam pela Primavera. Pequenas pedras rolam pela calçada até ao rio, empurradas pelo vento. Pátios desertos que prendem folhas secas aos cantos.

tinta permanente - João Pires - "Árvore Desnuda"
tinta permanente - João Pires - "Árvore Desnuda"


O sol acabado de nascer ilumina em tons índigos, os troncos das árvores. Mas elas lançam os seus galhos esqueléticos ao céu ainda escuro.

Sete ramos desencontrados erguem-se mais alto. De costas voltadas para o tronco principal. São as árvores que contam histórias através das suas folhas que agora não estão lá. São elas que ligam o céu à terra. São elas que estão em oração permanente de braços erguidos ao céu, como quem canta Fado. Sem descanso. Dia e noite. Porque não vais repousar um pouco? Árvores despidas, aparentemente envelhecidas pelo tempo, numa calvície de casca lisa. Com manchas. Todos os anos se libertam das folhas mortas. Tornam-se vazias para renascer. Livram-se do seu significado. Árvores da vida e que dão sombra mas que agora estão nuas, expostas. São o símbolo sagrado da criação, da fecundidade e da imortalidade. Mais tarde, no reflorescimento, as suas folhas voltarão a nascer em direcção ao céu. Quando o Inverno for embora.

7-1-2017

João Pires